A irmã


A irmã. Pequenina.
Pequenina a irmã de Angelita.
Escondia chaves, batons, brincos e aneizinhos...
quase sempre entre o rodapé e a parede
da casa azul celeste de madeira.
-Onde está a chave da gaveta?
-A mana encontra.
E vinha a irmã, com carinha inocente
e alegria estampada, com a chave na mão.
15 de abril, níver da irmã de Angelita.

Varal de Tempos de Shiva

Só porque adoro gatos, roupas velhas e confio no tempo:
Às vezes tenho necessidade de quarar no varal e voltar branco, alvíssimo mesmo. Aparentemente me renova o corpo, só aparentemente. Já a alma não, disso tenho a certeza, volta sempre lavada - renovada mesmo! - do varal. Por isso me permito me emporcalhar vezenquando, um alívio para quem sempre teve problemas com roupas novas - chamativas, engomadas, difíceis de usar... Sinto-me exposto demais vestindo roupas novas. Será que nunca saberei como usá-las? Talvez pense nisso na próxima vez que for quarar; no momento continuo me emporcalhando.Sei que o tempo pode me deixar manchas na alma - e no corpo também, por que não? - e acredite, ele tem feito isso com a assiduidade que só ele tem. Algumas são difíceis de tirar, outras não saem nunca, outras nem parecem que existiram, se é que realmente existiram um dia. Não me intimido nem me importo: sei que posso retomá-los - corpo e alma - sempre limpos, macios e perfumados, cada vez mais fáceis e gostosos de usar... mais íntimos mesmo!Basta colocá-los para quarar vezenquando. Tem funcionado. Mas até quando? Não sei...Afinal tudo gasta, tudo puí...O que sei é que enquanto houver alguém que pacientemente espere que eu seque e me resgate dos varais, me alise as dobras com mãos macias e carinhosas e me leve às narinas - mesmo que seja só para aspirar minha alma - e me aconchegue ao peito para sentir meu calor estarei vivendo, e isso tem me bastado.Difícil mesmo é atravessar os longos períodos de chuva e céu nublado. Mas isso também passa. O tempo me ensinou.
Sydney Jr

avental

"Me considero uma pessoa fácil de conviver. Só não tolero que discordem de mim."
tirei do blog da Lina

as vidas escondidas em um varal


"Colgar la ropa en un tendedor es quizá uno de los mayores ejercicios de exhibición íntima que uno puede hacer. El vecino ve nuestros calzoncillos y nuestras sábanas, nuestros vestidos de fiesta y nuestro pijama de rayas. Al voyeur puede que le interese, que le cause cierto morbo elucubrar sobre las vidas escondidas en la colada, pero cuando sujetamos las prendas con las pinzas no solemos pensar (al menos a mí me pasa así) en las miradas furtivas. Lo único que queremos es que no se nos caigan los calcetines rotos al piso de abajo. En su primer libro, Eva Puyó tiende (sobre el radiador caliente, claro está) la ropa de una familia humilde, que no tiene ni nombres ni apellidos, para tejer una serie de historias mínimas, próximas, que se encadenan dentro de un proceso de aprendizaje por el que la narradora alcanza la madurez física y emocional. Con un lenguaje desnudo, sin alardes ni maquillaje, viste con un delicado sentido del humor historias de dolor y alegría familiar, casi desde una perspectiva neorrealista que coloca las relaciones paternofiliales y fraternales bajo un microscopio sorprendido. En el libro de Eva hay además dos guías sobre las que se mueve el relato y sin las que quizás no tendría sentido. En primer lugar el espacio, una Zaragoza tierna y dibujada al carboncillo. “Ropa tendida” no se podría haber desarrollado en otro lugar. Por otro lado está el tiempo, especialmente para todos aquellos que, como Eva, nacimos en el 76, nos educamos con los pitufos y Pumuki y odiamos la revista Superpop para acabar escuchando a Kase-O o fumando porros en alguna de esas noches torcidas del bar “Bar”. Mientras tiempo y espacio se acomodan, la protagonista crece sin traumas, aprende a conducir, consigue su primer empleo, compra una VPO en el extrarradio, se enfrenta al amor y, poco a poco, empieza a tomar las riendas de una vida cogida con pinzas y expuesta al vecindario como ejemplo de supervivencia. Ahora, lo que toca es echarle un vistazo a la ropa tendida de Eva Puyó".
Sára Saudková es una extraordinaria fotógrafa checa digna heredera del gran maestro Jan Saudek. La imagen que ilustra este post se titula "The little laundress".

O pai

Quando nasceu, a mãe desejou que tivesse nome de artista.
O pai olhou e disse que tinha cara de anjo.
Assim nasceu Angelita.
Conviveu pouco com um pai.
Era caminhoneiro.
Uma lástima, disse ela.

"Cheia de Mim"

foto do Jorge Pinheiro
Hoje acordei "cheia de mim".
Quando acordo cheia de mim falo alto.
Reclamo e elogio com merecimento.
Mais reclamos que elogios.
Fico cheia de certezas.
Não é muito bom acordar cheia de mim no quesito "relacionamentos".
Não é bom não dar as certezas aos outros.
Os outros necessitam de certezas.
Certeza do que sentem e do que dizem.
Necessitam.
Não gostam de se sentirem nas dúvidas.
E quando acordo "cheia de mim" discordo de tudo.
E os que nâo acordam "cheios de si" te olham.
Ficam na dúvida se você merece um sorriso ou um desprezo.
Quase sempre desprezam ou meneam a cabeça fazendo um "não", assim, sabe?,
apertando os lábios fechados para um dos lados.
Cometo muitos erros quando acordo "cheia de mim".
Na hora exata do erro eu percebo, mas,
como estou cheíssima de mim, nem ligo.
Dou de ombros. Assim sabe? balanço eles pra cima e pra baixo, sabe?
Depois eu corrijo, digo.
Ás vezes não dá mais correção! o estrago foi lamentável.
O gerente me odiou, larguei palavrões homéricos, saí mal na foto do dia.
Mas nem ligo!
Digo que terei a oportunidade de redenção.
Eu me perdoo mais fácil quando acordo "cheia de mim".
Os outros não.

Saudade de te procurar

Alfons escreveu e me mandou esta foto:
"Mi horóscopo de hoy dice que dedique un espacio de mi mente para pensar en alguien que me atrae. Que busque a mi par... aunque no lo crea. "

E eu, como adquiri o último CD do Otto, dedico-lhe esta música que tá bem boa de ouvir:



Saudade quero ver pra crer
Saudade de te procurar
Na vida tudo pode acontecer
Partir e nunca mais voltar

Como um bom barco no mar
Eu vou, eu vou

(Julieta Venegas)
No tengo medo es la verdad
Y lo que sucederá
Podría perderme en esta felicidad
Cuando estás comigo
La distancia y el silencio
Son solo un instante que ya terminó

Saudade quero ver pra crer
Saudade de te procurar
Na vida tudo pode acontecer
Partir e nunca mais voltar

Como um bom barco no mar
Eu vou, eu vou

Recapitulando então...


Este ano dei pra colecionar caixinhas.
Só as pequenas. As de sabonete pra baixo.
De remédios, de cremes, de batom e de gloss (são mais compridinhas).
Até de refil de mata-mosquito eu tenho.
Não sei o que me deu. Dei pra colecionar caixinhas.

Este ano também dei pra ser menos corajosa.
Mesmo assim não tão menos. Gostaria de ser menos ainda.
Não gosto de ter coragem pra dizer aos estúpidos quanto eles o são.
Tive menos mas ainda tenho.

Este ano dei pra reconhecer o valor e o amor de minha mãe por mim.
Foi meu melhor feito este ano. É como se todos os maus momentos que passamos juntas,
por incompreensão mútua, se justificassem este ano.
E se dissiparam.
Definitivamente foi meu melhor logro.

Este ano dei pra ter menos nostalgia.
Saí do orkut, tentei facebook e twitter
mas decidi que a vida real é melhor que toda essa retórica virtual.
Mantenho minhas roupas penduradas em um blog.
E elas vão quarando devagar...
Descobri que apesar de boa, minha vontade é pouca.

Quero ter 60 já! É menos vaidoso!

Este ano dei pra sentir mais intuitivamente as pessoas.
Este ano dei pra engolir menos sapos.
E virei sapo intragável para alguns.
Porém, estou sempre pronta para a reconciliação.

Este ano dei pra escutar a Angelita com seus contos.

Este ano dei para ter mais apetite.
Este ano dei para controlar-me um pouco com guloseimas.

Este ano dei para gostar do amarelo, principalmente em forma de flor ou de parede.

Para o próximo ano ainda faço valer minhas intenções de 2009.
Algumas em andamento e outras já satisfeitas.
E tenho a intenção de possuir o último Cd do Otto.
E tenho a espetacular intenção de viver sem dificuldades.

Cumpra-se!


Bjs, boas festas e boas melhores intenções!

O amor aproxima(?)

para uma amiga
Num dia frio de inverno, os porcos-espinhos se aconchegaram uns aos outros, para ficarem quentes e não morrerem de frio; mas logo sentiram as picadelas dos outros e se afastaram. A necessidade de calor voltou a aproximá-los, mas de novo os espinhos os separaram. Aproximaram-se e afastaram-se à medida do seu desconforto, até que encontraram a distância ideal que lhes fornecia o máximo de calor e o mínimo de sofrimento.
Nos seres humanos, o vazio e a monotonia do isolamento provocam a necessidade de companhia. Isso faz que as pessoas se aproximem, mas suas múltiplas intenções agressivas voltam a afastá-las. A distância ideal que elas finalmente encontram e que lhes permite a coexistência com as outras reside na boa educação e nas boas maneiras. Por causa da distância entre nós, podemos satisfazer apenas parcialmente nossa necessidade de calor mas, ao mesmo tempo, ficamos livres das picadelas de outrem.
Arthur Schopenhauer, filósofo alemão.

Oi?

Foto de Eduardo Affonso - Minas

- E aquele seu primo do Rio, que trabalhava na Globo, você tem notícia dele?
- Tenho. As vezes ele me liga pra contar as novidades.
- Ele ainda trabalha…?
- Está se virando. Agora está fazendo papel de parede.
- Ahn, legal… em que novela?


de Odilon Vargas Toledo, via blog da Anna

A vida como ela é.

Foto de Miguel A. Lopes Migufu
Adicionar imagem
CLESSI – Está vendo como estou gorda, velha, cheia de varizes e de dinheiro?
ROBERTO – Não se nota.
CLESSI – Mas é. Está escrito.
ROBERTO – Não acredito.
CLESSI – (Acendendo uma piteira) - Hoje as palavras estão corrompidas, Roberto. No meu tempo eram jóias guardadas em cofre.
ROBERTO – Li o seu diário.
CLESSI – Leu? Duvido. Onde?
ROBERTO – Li, sim. Quero morrer agora mesmo, se não é verdade!
CLESSI – Então diga como é que começa.
ROBERTO – Quer ver? É assim… “Hoje vou falar com Roberto, não sei se devo dizer, acho melhor não. Roberto é inocente e não é, é culpado e não é. Tem medo de si mesmo e não tem.” É assim que começa.
CLESSI – Assim mesmo.
ROBERTO – Não sei como a senhora pôde escrever aquilo! Como teve coragem!
CLESSI – Mas não é só aquilo. Tem outras coisas.ROBERTO – Eu sei. Tem muito mais. Não devia, mas estou aqui! Não sei o que é que eu tenho. É uma coisa – não sei. Por que é que eu estou aqui?
CLESSI – É a mim que você pergunta?
ROBERTO – Por que é?
CLESSI – Porque você tem medo de ofender e humilhar, Roberto.
ROBERTO – Eu?
CLESSI – Você! E devia.
ROBERTO – É que não quero.
CLESSI – O sofrimento.
ROBERTO – Pra quê? A senhora é má. Não devia chamar-se Clessi, devia chamar-se Peixoto, Amado, Patrício. Devia ser homem.
CLESSI – (Vai tirando-lhe a roupa) – É o sofrimento que faz da vida uma relação mágica, Roberto. Misteriosa. Nunca pode haver distância entre o homem e o seu sofrimento eterno, o abismo da consciência. O homem diante do sofrimento perde a noção da própria identidade. Nu, diante do seu sofrimento, ele é o homem, o verdadeiro. A grande vida só começa depois do sofrimento.


O texto aqui publicado é fragmento da adaptação de Edson Bueno. Ctba-2009

Árvore do Conhecimento

foto e post Gilson Camargo

Eva, desobedecendo a ordem de Deus, come do fruto, oferecendo posteriormente a Adão, que também o come, provocando o que se chama de pecado original da humanidade.
“E ambos estavam nus, o homem e a sua mulher; e não se envergonhavam.Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o Senhor Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?E disse a mulher à serpente: Do fruto das árvores do jardim comeremos,Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais.Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis.Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal.E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela.Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.E ouviram a voz do Senhor Deus, que passeava no jardim pela viração do dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim.E chamou o Senhor Deus a Adão, e disse-lhe: Onde estás?E ele disse: Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me.E Deus disse: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses?Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi.E disse o Senhor Deus à mulher: Por que fizeste isto? E disse a mulher: A serpente me enganou, e eu comi.Então o Senhor Deus disse à serpente: Porquanto fizeste isto, maldita serás mais que toda a fera, e mais que todos os animais do campo; sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida.E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida.Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo.No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás.E chamou Adão o nome de sua mulher Eva; porquanto era a mãe de todos os viventes.E fez o Senhor Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu.Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente,O Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado.E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida.”
Gen, capítulo 3, versículos 1 e seguintes.

Varal para Principiantes

tirei DAQUI(é um blogue bem bacana), reproduzo o post "ipisislíteres", só os grifos são meus.
"Estou lendo o "Receitas caseiras para viver e morrer", da Debra Adelaide.
Preciso contar para você um trechinho que é a minha cara, talvez a explicação para meu (nosso, para algumas...) problema com varal. Fala sobre a cultura do varal, regras simples, claras e objetivas que deveriam ser seguidas por mulheres virtuosas, organizadas e eficientes - a dona de casa perfeita! (no século passado, claro...) Começa com horário em que as roupas deveriam ser colocadas ao sol - antes das nove. Impraticável no meu caso, ainda mais com o horário de verão. Segue falando sobre a ordem correta para pendurá-las, deixando escondidas meias e afins e reservando um lugar de honra para as roupas masculinas, "que deveriam ocupar sozinhas toda uma fileira, indicando sua importância na hierarquia do processo de lavagem de roupa e de todo o ambiente doméstico". E viva a igualdade!... mas tudo bem, esta é simples e o varal fica até mais bonitinho. Os pregadores jamais deveriam ficar no varal, o que denunciaria "um lar problemático dirigido por uma dona de casa desleixada." Ai que medo... ainda bem que meu varalzinho é retrátil! Tem também a questão da técnica: a roupa deveria ser sacudida e alisada "libertando-a do atormentado ciclo de secagem centrífuga". Mamy fala a mesma coisa, melhor fazer então...Deveria ser presa de modo inteligente para maximizar o acesso ao sol e a brisa, pendurando calcinhas pela lateral e nunca pelo forro. Faz sentido...A roupa jamais deveria ficar no varal de um dia para o outro, o que indicaria um sério lapso nos cuidados domésticos. (Só um minutinho que vou recolher a roupa e já volto! rs rs) Finalmente a secadora jamais deveria ser usada, pois era tida como coisa de mulher esbanjadora, praticamente um crime! Caso chovesse, o conselho era esticar cordinhas pela sala (praticamente a visão do apocalipse!!!) ou qualquer coisa semelhante. Se mesmo assim a roupa não secasse, o ferro deveria ser usado, porque a roupa teria que ser passada e ponto final. (Lidi, será que é o caso de tirarmos a secadora da nossa listinha de compras? rs rs...) Por isso meninas, agradeçamos todos os dias os varais retráteis, os pregadores coloridinhos e o fato de estarmos no século XXI, o que nos permite acordar as nove, colocar a roupa no varal ao meio dia, (e na ordem que der, misturando as roupas do maridinho aos nossos vestidinhos sem o menor problema...) e sonhar com o dia em que a roupa vai sair passadinha da secadora, porque passar roupa é chato demais! rs rsBjsss e amanhã a previsão é de sol, dá até para lavar os cobertores... na lavanderia rs rs

Palavras quarando



clica na imagem que dá pra ler melhor...

Adeli

Foto de Alysson Correa, by flickrHoje levantei ordenada. Quando levanto ordenada já arrumo a cama ao sair dela.
Na verdade, quando levanto ordenada é porque já dormi ordenada
e não deixei louça suja na pia na noite anterior.
Ordenada pra mim é a minha lida doméstica.
Levanto e vou arrumando, com álcool e paninho na mão.
Dobrar é meu suplício. Tem mulher que chora ao passar roupa ou ao lavar.
Pra mim é dobrar e arrumar o armário. Nunca, mas nunca está ordenado.
Minha vida é um eterno dobrar.
Eu não passo nada. Minhas roupas são anti rugas, são tecidos que não amassam.
Se amassam eu uso alguma coisa por cima e vai desamassando com o contato corporal.
Meu marido passa as dele.
Meu marido fica feliz quando levanto ordenada.

Tentação

foto Jorge Pinheiro...aqui e aqui
Teresa não-me-toques
torce o terço
tanto tato, tanto tino,
tanta trava...

ô tristeza!

tire o atraso, Tetê
tempo é tudo
destempere, atreva,
tropece

Se toque.
Maria Paula Alvim, do poema curta-metragem

Conselhos de Paracelso

ASSIM DIZIA PARACELSO...

I
Se por um espaço de alguns meses, observares rigorosamente as prescrições, que se seguem, ver-se-á operar, em tua vida uma MUTAÇÃO TÃO FAVORÁVEL, que nunca mais poderás esquecê-las. Mas, meu irmão, para que obtenhas o êxito desejado, é mister que adaptes tua vida à estrita observância destas regras. São simples e fáceis de seguir, mas é preciso observá-las com a máxima perseverança. Julgarás que a felicidade não vale um pouco de esforço? Se não és capaz de pores em prática estas regras, tão fáceis, terás o direito de te queixares do destino? Será tão difícil a tentativa de uma prova? São regras legadas pela antiga Sabedoria e há nelas mais transcendência do que simplicidade, como parece à primeira vista.
II
Antes de tudo, lembre-se de que não há nada melhor do que a saúde. Para isso deverás respirar, com a maior freqüência possível profunda e ritmicamente, enchendo os pulmões, ao ar livre ou defronte de uma janela aberta. Beber quotidianamente, a pequenos goles, dois litros de água, pelo menos; comer muitas frutas; mastigar bem os alimentos; evitar o álcool, o fumo e os medicamentos, salvo em caso de moléstia grave. Banhar-se diariamente, é um hábito que deverás à tua própria dignidade.
III
Banir absolutamente de teu ânimo, por mais razões que tenhas, toda a idéia de pessimismo, vingança, ódio, tédio, ou tristeza. Fugir como da peste, ao trato com pessoas maldizentes, invejosas, indolentes, intrigantes, vaidosas ou vulgares e inferiores pela natural baixeza de entendimentos ou pelos assuntos sensualistas, que são a base de suas conversas ou reflexos dos seus hábitos. A observância desta regra é de importância DECISIVA; trata-se de transformar a contextura espiritual de tua alma. É o único meio de mudar o teu destino, uma vez que este depende dos teus atos e dos teus pensamentos: A fatalidade não existe.
IV
Faze todo bem ao teu alcance. Auxilie a todo o infeliz sempre que possas, mas sempre de ânimo forte. Sê enérgico e foge de todo o sentimentalismo.
V
Esquece todas as ofensas que te façam, ainda mais, esforça-te por pensar o melhor possível do teu maior inimigo. Tua alma é um templo que não deve ser profanado pelo ódio.
VI
Recolhe-te todos os dias, a um lugar onde ninguém te vá perturbar e possas, ao menos durante meia hora, comodamente sentado, de olhos cerrados, NÃO PENSAR EM COISA ALGUMA. Isso fortifica o cérebro e o espírito e por-te-á em contanto com as boas influências. Neste estado de recolhimento e silêncio ocorrem-nos sempre idéias luminosas que podem modificar toda a nossa existência. Com o tempo, todos os problemas que parecem insolúveis serão resolvidos, vitoriosamente por uma voz interior que te guiará nesses instantes de silêncio, a sós com a tua consciência. É o DEMÔNIO de que SÓCRATES falava. Todos os grandes espíritos deixaram-se conduzir pelos conselhos dessa voz íntima. Mas, não te falará assim de súbito; tens que te preparar por algum tempo, destruir as capas superpostas dos velhos hábitos; pensamentos e erros, que envolvem o teu espírito, que embora divino e perfeito, não encontra os elementos que precisa para manifestar-se.
VII
A CARNE É FRACA Deves guardar, em absoluto silêncio, todos os teus casos pessoais. Abster-se como se fizesses um juramento solene, de contar a qualquer pessoa, por mais íntima, tudo quanto penses, ouças, saibas, aprendas ou descubras. É UMA REGRA DE SUMA IMPORTÂNCIA.
VIII
Não temas a ninguém nem te inspire a menor preocupação a dia de amanhã. Mantém tua alma sempre forte e sempre pura e tudo correrá e sairá bem. Nunca te julgues sozinho ou desamparado; atrás de ti existem exércitos poderosos que tua mente não pode conceber. Se elevas o teu espírito, não há mal que te atinja. Só a um inimigo deves temer: A TI MESMO. O medo e a dúvida no futuro são a origem funesta de todos os insucessos; atraem influências maléficas e, estas, o inevitável desastre. Se observares essas criaturas, que te dizem felizes verás que agem instintivamente de acordo com estas regras. Muitas das que alegam que possuem grandes fortunas podem não ser pessoas de bem, mas possuem muitas das virtudes acima mencionadas. Demais, riqueza não quer dizer felicidade; pode se constituir em um dos melhores fatores, porque nos permite a prática de boas ações, mas, a verdadeira felicidade só se alcança palmilhando outros caminhos, veredas por onde nunca transita o velho Satã da lenda, cujo nome verdadeiro é EGOÍSMO.
IX
Não te queixes de nada e de ninguém. Domina os teus sentidos, foge da modéstia como da vaidade; ambas são funestas e prejudiciais ao êxito. A modéstia tolherá tuas forças e a vaidade é tão nociva como se cometêsses um pecado mortal contra o ESPÍRITO SANTO. Muitas individualidades de real valor tombaram das altas culminâncias atingidas, em conseqüência da Vaidade; a ela deveram certamente a sua queda Júlio Cesar, aquele homem extraordinário que se chamou Napoleão e muitos outros.Oxalá, sigas sempre estas poucas regras para a tua FELICIDADE, para o teu BEM e a nossa ALEGRIA.

PARACELSO (Aureolus Phillippus Teophratus Bombast von Hohenheim), que assim se intitulava por se considerar "além de Celso", nasceu a 10 de novembro de 1493, em Einsiedeln, um vilarejo nas montanhas da Suíça alemã. Seu pai Wilhelm Bombast era médico. Seu avô foi o Grão Mestre da Ordem dos Cavaleiros de São João, Georg Bombast von Hohenheim. Provavelmente Paracelso teria se iniciado na Alquimia com o seu avô, combateu os princípios da medicina tradicional, considerados por ele obscuros e sem fundamento. Percebeu a possibilidade de utilização dos conhecimentos da Alquimia na medicina, na formulação e descobrimento de novos medicamentos, além de antecipar vários fundamentos da homeopatia, farmacologia, medicina psicossomática, psicologia e bioenergética. Morreu aos 48 anos, em 24 de setembro de 1541.

3 Coisas

Gaspar de Jesus, aqui
TRÊS COISAS FAZEM UM PRODÍGIO
E todas constituem dádivas da generosidade divina: rica inteligência, juízo profundo e bom gosto. A imaginação é um grande dom, mas é ainda mais notável raciocinar e ter um bom entendimento. A inteligência não deve estar no esforço, pois seria mais trabalhadora do que aguda. Pensar bem é o resultado da racionalidade. Aos 20 reina a vontade, aos 30 a inteligência, aos 40 o juízo. Algumas mentes irradiam luz como os olhos do lince e raciocinam melhor na maior escuridão. Outras reagem de acordo com a ocasião. Encontram respostas com freqüência e bem: uma fecundidade felicíssima. E o bom gosto dá sal a toda vida.
Baltasar Gracián
(A arte da Prudência)

Avós


Angelita já nasceu sem avós, me conta ela.
Uma era lavradora, mãos grandes e venosas,
de arrancar raízes.
A outra era parideira, mais fina porém não menos rude.
Morreu ao nascer o sétimo filho que virou doutor.
A sorte lhe deu uma avó postiça
que tinha cheiro de Seivas de Alfazema e Cashmere Bouquet.

Changes



peguei daqui.

Dandelion


_Abre a boca e fecha os olhos.
Angelita sempre caía no imperativo do primo.
Sabe quantas sementes de dente-de-leão
Angelita engoliu?

Dama de honra


Angelita me contou:
A mãe tirava fotos de casamentos e batizados.
Tudo colorido da Yashica.
O negativo era 5x5, a máquina era de pendurar no pescoço
e o flash de segurar na mão.
As poses eram preparadas.
Às vezes Angelita acompanhava a mãe como daminha de honra da noiva.
Pacote completo.
Às vezes Angelita ficava na vizinha.
Era incompreensível dormir na vizinha.

Saber esperar


Um grande coração tem mais capacidade de suportar o sofrimento. Nunca se deixa levar pela pressa das paixões. Aquele que é senhor de si será depois também dos outros. Deve-se caminhar pelos espaços abertos do tempo até o centro da oportunidade. A espera prudente tempera os acertos e amadurece os pensamentos secretos. A muleta do tempo é mais útil que a afiada arma de Hércules. Deus mesmo não castiga com o bastão, mas com as estações, com o tempo. É um grande ditado: "O tempo e eu contra outros dois." A Sorte recompensa quem sabe esperar.

Baltasar Gracián

As caixinhas


Quando Angelita era Angelita,
o avô era fotógrafo, me conta ela.
Entre 3x4, 10x15 e poucas 13x18,
as caixinhas amarelas de papel Kodak
se acumulavam ao lado do quarto escuro de revelação.
Angelita e os primos se divertiam enfileirando
as caixas como dominó. Por todos os cômodos do barracão.
O cuidado em não derrubar tudo antes do fim.
O avô tropeçava, xingava mas continuava armazenando
as caixinhas amarelas para as férias.

Certeza


Quando Angelita era Angelita,
seu pavor era perder a mãe, me conta ela.
Acordava à noite em busca de aconchego.
A mãe a deixava livre durante o dia,
mas ela tratava de não se afastar muito de casa.
Assim podia ter certeza.

Lídia, de olhos de Ulisses


2.

Ela sabe que só se ama pelo intelecto.

Lídia , uma escritora suicida
(esta é a segunda estória mínima, de 10)

Necesito


Necesito alguien que me parche un poco y que limpie mi cabeza
Que cocine guisos de madre, postres de abuela y torres de caramelo
Que ponga tachuelas en mis zapatos para que me acuerde que voy caminando
y que cuelgue mi mente de una soga hasta que se seque de problemasy me lleve...
Y que esté en mi cama viernes y domingo para estar en su alma todos los demás dias de mi vida
Y que me quiera cuando estoy, cuando me voy, cuando me fui
y que sepa servir el té, besarme después y echar a reir
Y que conozca las palabras que jamás le voy a decir
y que no le importe mi ropa si total me voy a desvestir..
Si conocen alguien asi, yo se los pido....
que me avisen porque es asi totalmente.... quien necesito!

Charly Garcia e Nito Mestre, Sui Generis, 1970.



Alfonsina Haquin foi quem me mandou.

Mandioca


Das folhas de Angelita, a que ela mais gostava era a do pé de mandioca.
O quintal da vizinha era pleno delas.
Era longa a plantação mas ela não se interessa saber até onde ia.
Arrancar a folha do caule, observar o leite espesso gotear.
E depois outra e mais outra.
Depois fazia uma saia e saía a desfilar. Coqueta.

A vizinha sorria: Josephine Baker rural.

O lagarto

Quando Angelita era Angelita,
a casa era azul celeste e o chão era de terra vermelha, me conta ela.
Chegando da brincadeira, havaianas sujas,
não avistou a mãe que lavava a roupa no rio, ali atrás.
Avistou sim um lagarto enorme.
O susto. A solidão.
O choro incontido trouxe a mãe de volta.
Angelita descobriu que chorar espanta certos animais.

acidez


_Não somos ostras minha filha,
não conseguimos transformar lixo em pérola,
em nós lixo engolido, vira doença!