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A irmã


A irmã. Pequenina.
Pequenina a irmã de Angelita.
Escondia chaves, batons, brincos e aneizinhos...
quase sempre entre o rodapé e a parede
da casa azul celeste de madeira.
-Onde está a chave da gaveta?
-A mana encontra.
E vinha a irmã, com carinha inocente
e alegria estampada, com a chave na mão.
15 de abril, níver da irmã de Angelita.

O pai

Quando nasceu, a mãe desejou que tivesse nome de artista.
O pai olhou e disse que tinha cara de anjo.
Assim nasceu Angelita.
Conviveu pouco com um pai.
Era caminhoneiro.
Uma lástima, disse ela.

Avós


Angelita já nasceu sem avós, me conta ela.
Uma era lavradora, mãos grandes e venosas,
de arrancar raízes.
A outra era parideira, mais fina porém não menos rude.
Morreu ao nascer o sétimo filho que virou doutor.
A sorte lhe deu uma avó postiça
que tinha cheiro de Seivas de Alfazema e Cashmere Bouquet.

Dandelion


_Abre a boca e fecha os olhos.
Angelita sempre caía no imperativo do primo.
Sabe quantas sementes de dente-de-leão
Angelita engoliu?

Dama de honra


Angelita me contou:
A mãe tirava fotos de casamentos e batizados.
Tudo colorido da Yashica.
O negativo era 5x5, a máquina era de pendurar no pescoço
e o flash de segurar na mão.
As poses eram preparadas.
Às vezes Angelita acompanhava a mãe como daminha de honra da noiva.
Pacote completo.
Às vezes Angelita ficava na vizinha.
Era incompreensível dormir na vizinha.

As caixinhas


Quando Angelita era Angelita,
o avô era fotógrafo, me conta ela.
Entre 3x4, 10x15 e poucas 13x18,
as caixinhas amarelas de papel Kodak
se acumulavam ao lado do quarto escuro de revelação.
Angelita e os primos se divertiam enfileirando
as caixas como dominó. Por todos os cômodos do barracão.
O cuidado em não derrubar tudo antes do fim.
O avô tropeçava, xingava mas continuava armazenando
as caixinhas amarelas para as férias.

Certeza


Quando Angelita era Angelita,
seu pavor era perder a mãe, me conta ela.
Acordava à noite em busca de aconchego.
A mãe a deixava livre durante o dia,
mas ela tratava de não se afastar muito de casa.
Assim podia ter certeza.

Mandioca


Das folhas de Angelita, a que ela mais gostava era a do pé de mandioca.
O quintal da vizinha era pleno delas.
Era longa a plantação mas ela não se interessa saber até onde ia.
Arrancar a folha do caule, observar o leite espesso gotear.
E depois outra e mais outra.
Depois fazia uma saia e saía a desfilar. Coqueta.

A vizinha sorria: Josephine Baker rural.

O lagarto

Quando Angelita era Angelita,
a casa era azul celeste e o chão era de terra vermelha, me conta ela.
Chegando da brincadeira, havaianas sujas,
não avistou a mãe que lavava a roupa no rio, ali atrás.
Avistou sim um lagarto enorme.
O susto. A solidão.
O choro incontido trouxe a mãe de volta.
Angelita descobriu que chorar espanta certos animais.

a vizinha anã


Angelita me contou:
Tinha uma vizinha anã. Casada. Marido e filhos normais, disse ela.
Uma noite a vizinha foi atingida por um raio, que não a partiu.
Como não sucumbiu a anã, energizou-se.
Precisava de um descarrego.
O marido enterrou-a, no quintal, só com a cabeça de fora.
O fio terra descarregava.
Deixou-a por dois dias e duas noites.
Ele também descarregou.

Canavial


Quando Angelita era Angelita, não sabia o mistério de um canavial, disse ela.
Buscava leite de vaca na garrafa de coca-cola, pra mãe.
Passava por canaviais de metros, que lhe pareciam quilômetros, de altura.
Era um misto de medo e desejo, adentrar ou não naquele verde.
Ela adentrava.

O nono


Quando Angelita era Angelita, me conta ela,
passava férias no interior, na casa do avô.
De suas aventuras, a que mais a faz rir,
é a de jogar água fria pela basculante do banheiro
enquanto o avô se banhava.
Não era uma aventura solitária. Era acompanhada pelos primos.
Férias sem primos não é infância, diz ela.

Migalhas


Quando Angelita era Angelita o pão era caseiro, me conta ela.
Ninguém a mandava à padaria. Não para isto.
Entre fofocas e segredos, as migalhas se espalhavam pela mesa.
Entre os dedos de sua tia, as migalhas se tornavam bolinhas.
Assim a manhã passava e o pratinho da tia era todo um petit poá.

A tia de Angelita


Quando Angelita era Angelita, me conta ela,
gostava muito de imitar a tia no café da manhã.
A cozinha de cimento queimado vermelho
tinha sobre ele um fogão a lenha e uma mesa para 8 pessoas.
Entre a cozinha e a sala, um degrau.
A tia tinha a mania de mexer o açúcar na xícara com a faca.
Angelita achava isso de uma maturidade!Adicionar vídeo

Angelita me contou



Quando Angelita era Angelita,
não tinha irmã, me conta ela.
As lembranças de ser Angelita são nostalgias solitárias.
São sem ouvintes nem testemunhas.
Era agridoce ser sozinha.

Angelita me abandona

"Quando a criança era criança e balançava os braços sem saber imaginava que o riacho fosse rio e também o mar fosse rio, embora pudesse ser mar, mas não sabia que tudo não passava de uma pequena poça de chuva, quando por acaso chovia".
Quando a criança era criança a vida era uma só e ela não tinha nem opiniões nem hábitos, desconhecia as ruas e não fazia poses para fotos, nem\ erguia a cabeça contra o céu aberto - o universo era uma casa de um andar e um homem tomando banho no quintal.
Como no parto, as mulheres acabam com suas vidas, não é possível esquecer o pôr-de-sol - e os tempos e os acontecimentos que passaram são fluidos. Há colinas não muito altas - chega um avião e as árvores se encrespam contra o ruído.
O guarda-chuva está encharcado e já não protege - o homem se resigna e enfrenta a chuva, os livros antigos exorcisam o pensamento e o calor das mãos diante da imagem imóvel evoca a música sacra e o enlevo de se sentir, como as crianças, perpétuo.
(trecho de "quando a criança era criança" de Asas do Desejo, de Win Wenders)