Oi?

Foto de Eduardo Affonso - Minas

- E aquele seu primo do Rio, que trabalhava na Globo, você tem notícia dele?
- Tenho. As vezes ele me liga pra contar as novidades.
- Ele ainda trabalha…?
- Está se virando. Agora está fazendo papel de parede.
- Ahn, legal… em que novela?


de Odilon Vargas Toledo, via blog da Anna

A vida como ela é.

Foto de Miguel A. Lopes Migufu
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CLESSI – Está vendo como estou gorda, velha, cheia de varizes e de dinheiro?
ROBERTO – Não se nota.
CLESSI – Mas é. Está escrito.
ROBERTO – Não acredito.
CLESSI – (Acendendo uma piteira) - Hoje as palavras estão corrompidas, Roberto. No meu tempo eram jóias guardadas em cofre.
ROBERTO – Li o seu diário.
CLESSI – Leu? Duvido. Onde?
ROBERTO – Li, sim. Quero morrer agora mesmo, se não é verdade!
CLESSI – Então diga como é que começa.
ROBERTO – Quer ver? É assim… “Hoje vou falar com Roberto, não sei se devo dizer, acho melhor não. Roberto é inocente e não é, é culpado e não é. Tem medo de si mesmo e não tem.” É assim que começa.
CLESSI – Assim mesmo.
ROBERTO – Não sei como a senhora pôde escrever aquilo! Como teve coragem!
CLESSI – Mas não é só aquilo. Tem outras coisas.ROBERTO – Eu sei. Tem muito mais. Não devia, mas estou aqui! Não sei o que é que eu tenho. É uma coisa – não sei. Por que é que eu estou aqui?
CLESSI – É a mim que você pergunta?
ROBERTO – Por que é?
CLESSI – Porque você tem medo de ofender e humilhar, Roberto.
ROBERTO – Eu?
CLESSI – Você! E devia.
ROBERTO – É que não quero.
CLESSI – O sofrimento.
ROBERTO – Pra quê? A senhora é má. Não devia chamar-se Clessi, devia chamar-se Peixoto, Amado, Patrício. Devia ser homem.
CLESSI – (Vai tirando-lhe a roupa) – É o sofrimento que faz da vida uma relação mágica, Roberto. Misteriosa. Nunca pode haver distância entre o homem e o seu sofrimento eterno, o abismo da consciência. O homem diante do sofrimento perde a noção da própria identidade. Nu, diante do seu sofrimento, ele é o homem, o verdadeiro. A grande vida só começa depois do sofrimento.


O texto aqui publicado é fragmento da adaptação de Edson Bueno. Ctba-2009

Árvore do Conhecimento

foto e post Gilson Camargo

Eva, desobedecendo a ordem de Deus, come do fruto, oferecendo posteriormente a Adão, que também o come, provocando o que se chama de pecado original da humanidade.
“E ambos estavam nus, o homem e a sua mulher; e não se envergonhavam.Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o Senhor Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?E disse a mulher à serpente: Do fruto das árvores do jardim comeremos,Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais.Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis.Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal.E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela.Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.E ouviram a voz do Senhor Deus, que passeava no jardim pela viração do dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim.E chamou o Senhor Deus a Adão, e disse-lhe: Onde estás?E ele disse: Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me.E Deus disse: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses?Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi.E disse o Senhor Deus à mulher: Por que fizeste isto? E disse a mulher: A serpente me enganou, e eu comi.Então o Senhor Deus disse à serpente: Porquanto fizeste isto, maldita serás mais que toda a fera, e mais que todos os animais do campo; sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida.E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida.Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo.No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás.E chamou Adão o nome de sua mulher Eva; porquanto era a mãe de todos os viventes.E fez o Senhor Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu.Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente,O Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado.E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida.”

Varal para Principiantes

tirei DAQUI(é um blogue bem bacana), reproduzo o post "ipisislíteres", só os grifos são meus.
"Estou lendo o "Receitas caseiras para viver e morrer", da Debra Adelaide.
Preciso contar para você um trechinho que é a minha cara, talvez a explicação para meu (nosso, para algumas...) problema com varal. Fala sobre a cultura do varal, regras simples, claras e objetivas que deveriam ser seguidas por mulheres virtuosas, organizadas e eficientes - a dona de casa perfeita! (no século passado, claro...) Começa com horário em que as roupas deveriam ser colocadas ao sol - antes das nove. Impraticável no meu caso, ainda mais com o horário de verão. Segue falando sobre a ordem correta para pendurá-las, deixando escondidas meias e afins e reservando um lugar de honra para as roupas masculinas, "que deveriam ocupar sozinhas toda uma fileira, indicando sua importância na hierarquia do processo de lavagem de roupa e de todo o ambiente doméstico". E viva a igualdade!... mas tudo bem, esta é simples e o varal fica até mais bonitinho. Os pregadores jamais deveriam ficar no varal, o que denunciaria "um lar problemático dirigido por uma dona de casa desleixada." Ai que medo... ainda bem que meu varalzinho é retrátil! Tem também a questão da técnica: a roupa deveria ser sacudida e alisada "libertando-a do atormentado ciclo de secagem centrífuga". Mamy fala a mesma coisa, melhor fazer então...Deveria ser presa de modo inteligente para maximizar o acesso ao sol e a brisa, pendurando calcinhas pela lateral e nunca pelo forro. Faz sentido...A roupa jamais deveria ficar no varal de um dia para o outro, o que indicaria um sério lapso nos cuidados domésticos. (Só um minutinho que vou recolher a roupa e já volto! rs rs) Finalmente a secadora jamais deveria ser usada, pois era tida como coisa de mulher esbanjadora, praticamente um crime! Caso chovesse, o conselho era esticar cordinhas pela sala (praticamente a visão do apocalipse!!!) ou qualquer coisa semelhante. Se mesmo assim a roupa não secasse, o ferro deveria ser usado, porque a roupa teria que ser passada e ponto final. (Lidi, será que é o caso de tirarmos a secadora da nossa listinha de compras? rs rs...) Por isso meninas, agradeçamos todos os dias os varais retráteis, os pregadores coloridinhos e o fato de estarmos no século XXI, o que nos permite acordar as nove, colocar a roupa no varal ao meio dia, (e na ordem que der, misturando as roupas do maridinho aos nossos vestidinhos sem o menor problema...) e sonhar com o dia em que a roupa vai sair passadinha da secadora, porque passar roupa é chato demais! rs rsBjsss e amanhã a previsão é de sol, dá até para lavar os cobertores... na lavanderia rs rs

Palavras quarando



clica na imagem que dá pra ler melhor...

Adeli

Foto de Alysson Correa, by flickrHoje levantei ordenada. Quando levanto ordenada já arrumo a cama ao sair dela.
Na verdade, quando levanto ordenada é porque já dormi ordenada
e não deixei louça suja na pia na noite anterior.
Ordenada pra mim é a minha lida doméstica.
Levanto e vou arrumando, com álcool e paninho na mão.
Dobrar é meu suplício. Tem mulher que chora ao passar roupa ou ao lavar.
Pra mim é dobrar e arrumar o armário. Nunca, mas nunca está ordenado.
Minha vida é um eterno dobrar.
Eu não passo nada. Minhas roupas são anti rugas, são tecidos que não amassam.
Se amassam eu uso alguma coisa por cima e vai desamassando com o contato corporal.
Meu marido passa as dele.
Meu marido fica feliz quando levanto ordenada.

Tentação

foto Jorge Pinheiro...aqui e aqui
Teresa não-me-toques
torce o terço
tanto tato, tanto tino,
tanta trava...

ô tristeza!

tire o atraso, Tetê
tempo é tudo
destempere, atreva,
tropece

Se toque.
Maria Paula Alvim, do poema curta-metragem

Conselhos de Paracelso

ASSIM DIZIA PARACELSO...

I
Se por um espaço de alguns meses, observares rigorosamente as prescrições, que se seguem, ver-se-á operar, em tua vida uma MUTAÇÃO TÃO FAVORÁVEL, que nunca mais poderás esquecê-las. Mas, meu irmão, para que obtenhas o êxito desejado, é mister que adaptes tua vida à estrita observância destas regras. São simples e fáceis de seguir, mas é preciso observá-las com a máxima perseverança. Julgarás que a felicidade não vale um pouco de esforço? Se não és capaz de pores em prática estas regras, tão fáceis, terás o direito de te queixares do destino? Será tão difícil a tentativa de uma prova? São regras legadas pela antiga Sabedoria e há nelas mais transcendência do que simplicidade, como parece à primeira vista.
II
Antes de tudo, lembre-se de que não há nada melhor do que a saúde. Para isso deverás respirar, com a maior freqüência possível profunda e ritmicamente, enchendo os pulmões, ao ar livre ou defronte de uma janela aberta. Beber quotidianamente, a pequenos goles, dois litros de água, pelo menos; comer muitas frutas; mastigar bem os alimentos; evitar o álcool, o fumo e os medicamentos, salvo em caso de moléstia grave. Banhar-se diariamente, é um hábito que deverás à tua própria dignidade.
III
Banir absolutamente de teu ânimo, por mais razões que tenhas, toda a idéia de pessimismo, vingança, ódio, tédio, ou tristeza. Fugir como da peste, ao trato com pessoas maldizentes, invejosas, indolentes, intrigantes, vaidosas ou vulgares e inferiores pela natural baixeza de entendimentos ou pelos assuntos sensualistas, que são a base de suas conversas ou reflexos dos seus hábitos. A observância desta regra é de importância DECISIVA; trata-se de transformar a contextura espiritual de tua alma. É o único meio de mudar o teu destino, uma vez que este depende dos teus atos e dos teus pensamentos: A fatalidade não existe.
IV
Faze todo bem ao teu alcance. Auxilie a todo o infeliz sempre que possas, mas sempre de ânimo forte. Sê enérgico e foge de todo o sentimentalismo.
V
Esquece todas as ofensas que te façam, ainda mais, esforça-te por pensar o melhor possível do teu maior inimigo. Tua alma é um templo que não deve ser profanado pelo ódio.
VI
Recolhe-te todos os dias, a um lugar onde ninguém te vá perturbar e possas, ao menos durante meia hora, comodamente sentado, de olhos cerrados, NÃO PENSAR EM COISA ALGUMA. Isso fortifica o cérebro e o espírito e por-te-á em contanto com as boas influências. Neste estado de recolhimento e silêncio ocorrem-nos sempre idéias luminosas que podem modificar toda a nossa existência. Com o tempo, todos os problemas que parecem insolúveis serão resolvidos, vitoriosamente por uma voz interior que te guiará nesses instantes de silêncio, a sós com a tua consciência. É o DEMÔNIO de que SÓCRATES falava. Todos os grandes espíritos deixaram-se conduzir pelos conselhos dessa voz íntima. Mas, não te falará assim de súbito; tens que te preparar por algum tempo, destruir as capas superpostas dos velhos hábitos; pensamentos e erros, que envolvem o teu espírito, que embora divino e perfeito, não encontra os elementos que precisa para manifestar-se.
VII
A CARNE É FRACA Deves guardar, em absoluto silêncio, todos os teus casos pessoais. Abster-se como se fizesses um juramento solene, de contar a qualquer pessoa, por mais íntima, tudo quanto penses, ouças, saibas, aprendas ou descubras. É UMA REGRA DE SUMA IMPORTÂNCIA.
VIII
Não temas a ninguém nem te inspire a menor preocupação a dia de amanhã. Mantém tua alma sempre forte e sempre pura e tudo correrá e sairá bem. Nunca te julgues sozinho ou desamparado; atrás de ti existem exércitos poderosos que tua mente não pode conceber. Se elevas o teu espírito, não há mal que te atinja. Só a um inimigo deves temer: A TI MESMO. O medo e a dúvida no futuro são a origem funesta de todos os insucessos; atraem influências maléficas e, estas, o inevitável desastre. Se observares essas criaturas, que te dizem felizes verás que agem instintivamente de acordo com estas regras. Muitas das que alegam que possuem grandes fortunas podem não ser pessoas de bem, mas possuem muitas das virtudes acima mencionadas. Demais, riqueza não quer dizer felicidade; pode se constituir em um dos melhores fatores, porque nos permite a prática de boas ações, mas, a verdadeira felicidade só se alcança palmilhando outros caminhos, veredas por onde nunca transita o velho Satã da lenda, cujo nome verdadeiro é EGOÍSMO.
IX
Não te queixes de nada e de ninguém. Domina os teus sentidos, foge da modéstia como da vaidade; ambas são funestas e prejudiciais ao êxito. A modéstia tolherá tuas forças e a vaidade é tão nociva como se cometêsses um pecado mortal contra o ESPÍRITO SANTO. Muitas individualidades de real valor tombaram das altas culminâncias atingidas, em conseqüência da Vaidade; a ela deveram certamente a sua queda Júlio Cesar, aquele homem extraordinário que se chamou Napoleão e muitos outros.Oxalá, sigas sempre estas poucas regras para a tua FELICIDADE, para o teu BEM e a nossa ALEGRIA.

PARACELSO (Aureolus Phillippus Teophratus Bombast von Hohenheim), que assim se intitulava por se considerar "além de Celso", nasceu a 10 de novembro de 1493, em Einsiedeln, um vilarejo nas montanhas da Suíça alemã. Seu pai Wilhelm Bombast era médico. Seu avô foi o Grão Mestre da Ordem dos Cavaleiros de São João, Georg Bombast von Hohenheim. Provavelmente Paracelso teria se iniciado na Alquimia com o seu avô, combateu os princípios da medicina tradicional, considerados por ele obscuros e sem fundamento. Percebeu a possibilidade de utilização dos conhecimentos da Alquimia na medicina, na formulação e descobrimento de novos medicamentos, além de antecipar vários fundamentos da homeopatia, farmacologia, medicina psicossomática, psicologia e bioenergética. Morreu aos 48 anos, em 24 de setembro de 1541.

3 Coisas

Gaspar de Jesus, aqui
TRÊS COISAS FAZEM UM PRODÍGIO
E todas constituem dádivas da generosidade divina: rica inteligência, juízo profundo e bom gosto. A imaginação é um grande dom, mas é ainda mais notável raciocinar e ter um bom entendimento. A inteligência não deve estar no esforço, pois seria mais trabalhadora do que aguda. Pensar bem é o resultado da racionalidade. Aos 20 reina a vontade, aos 30 a inteligência, aos 40 o juízo. Algumas mentes irradiam luz como os olhos do lince e raciocinam melhor na maior escuridão. Outras reagem de acordo com a ocasião. Encontram respostas com freqüência e bem: uma fecundidade felicíssima. E o bom gosto dá sal a toda vida.
Baltasar Gracián
(A arte da Prudência)

Avós


Angelita já nasceu sem avós, me conta ela.
Uma era lavradora, mãos grandes e venosas,
de arrancar raízes.
A outra era parideira, mais fina porém não menos rude.
Morreu ao nascer o sétimo filho que virou doutor.
A sorte lhe deu uma avó postiça
que tinha cheiro de Seivas de Alfazema e Cashmere Bouquet.

Changes



peguei daqui.

Dandelion


_Abre a boca e fecha os olhos.
Angelita sempre caía no imperativo do primo.
Sabe quantas sementes de dente-de-leão
Angelita engoliu?

Dama de honra


Angelita me contou:
A mãe tirava fotos de casamentos e batizados.
Tudo colorido da Yashica.
O negativo era 5x5, a máquina era de pendurar no pescoço
e o flash de segurar na mão.
As poses eram preparadas.
Às vezes Angelita acompanhava a mãe como daminha de honra da noiva.
Pacote completo.
Às vezes Angelita ficava na vizinha.
Era incompreensível dormir na vizinha.

Saber esperar


Um grande coração tem mais capacidade de suportar o sofrimento. Nunca se deixa levar pela pressa das paixões. Aquele que é senhor de si será depois também dos outros. Deve-se caminhar pelos espaços abertos do tempo até o centro da oportunidade. A espera prudente tempera os acertos e amadurece os pensamentos secretos. A muleta do tempo é mais útil que a afiada arma de Hércules. Deus mesmo não castiga com o bastão, mas com as estações, com o tempo. É um grande ditado: "O tempo e eu contra outros dois." A Sorte recompensa quem sabe esperar.

Baltasar Gracián

As caixinhas


Quando Angelita era Angelita,
o avô era fotógrafo, me conta ela.
Entre 3x4, 10x15 e poucas 13x18,
as caixinhas amarelas de papel Kodak
se acumulavam ao lado do quarto escuro de revelação.
Angelita e os primos se divertiam enfileirando
as caixas como dominó. Por todos os cômodos do barracão.
O cuidado em não derrubar tudo antes do fim.
O avô tropeçava, xingava mas continuava armazenando
as caixinhas amarelas para as férias.

Certeza


Quando Angelita era Angelita,
seu pavor era perder a mãe, me conta ela.
Acordava à noite em busca de aconchego.
A mãe a deixava livre durante o dia,
mas ela tratava de não se afastar muito de casa.
Assim podia ter certeza.

Lídia, de olhos de Ulisses


2.

Ela sabe que só se ama pelo intelecto.

Lídia , uma escritora suicida
(esta é a segunda estória mínima, de 10)

Necesito


Necesito alguien que me parche un poco y que limpie mi cabeza
Que cocine guisos de madre, postres de abuela y torres de caramelo
Que ponga tachuelas en mis zapatos para que me acuerde que voy caminando
y que cuelgue mi mente de una soga hasta que se seque de problemasy me lleve...
Y que esté en mi cama viernes y domingo para estar en su alma todos los demás dias de mi vida
Y que me quiera cuando estoy, cuando me voy, cuando me fui
y que sepa servir el té, besarme después y echar a reir
Y que conozca las palabras que jamás le voy a decir
y que no le importe mi ropa si total me voy a desvestir..
Si conocen alguien asi, yo se los pido....
que me avisen porque es asi totalmente.... quien necesito!

Charly Garcia e Nito Mestre, Sui Generis, 1970.



Alfonsina Haquin foi quem me mandou.

Mandioca


Das folhas de Angelita, a que ela mais gostava era a do pé de mandioca.
O quintal da vizinha era pleno delas.
Era longa a plantação mas ela não se interessa saber até onde ia.
Arrancar a folha do caule, observar o leite espesso gotear.
E depois outra e mais outra.
Depois fazia uma saia e saía a desfilar. Coqueta.

A vizinha sorria: Josephine Baker rural.

O lagarto

Quando Angelita era Angelita,
a casa era azul celeste e o chão era de terra vermelha, me conta ela.
Chegando da brincadeira, havaianas sujas,
não avistou a mãe que lavava a roupa no rio, ali atrás.
Avistou sim um lagarto enorme.
O susto. A solidão.
O choro incontido trouxe a mãe de volta.
Angelita descobriu que chorar espanta certos animais.

acidez


_Não somos ostras minha filha,
não conseguimos transformar lixo em pérola,
em nós lixo engolido, vira doença!

a vizinha anã


Angelita me contou:
Tinha uma vizinha anã. Casada. Marido e filhos normais, disse ela.
Uma noite a vizinha foi atingida por um raio, que não a partiu.
Como não sucumbiu a anã, energizou-se.
Precisava de um descarrego.
O marido enterrou-a, no quintal, só com a cabeça de fora.
O fio terra descarregava.
Deixou-a por dois dias e duas noites.
Ele também descarregou.

Canavial


Quando Angelita era Angelita, não sabia o mistério de um canavial, disse ela.
Buscava leite de vaca na garrafa de coca-cola, pra mãe.
Passava por canaviais de metros, que lhe pareciam quilômetros, de altura.
Era um misto de medo e desejo, adentrar ou não naquele verde.
Ela adentrava.

O nono


Quando Angelita era Angelita, me conta ela,
passava férias no interior, na casa do avô.
De suas aventuras, a que mais a faz rir,
é a de jogar água fria pela basculante do banheiro
enquanto o avô se banhava.
Não era uma aventura solitária. Era acompanhada pelos primos.
Férias sem primos não é infância, diz ela.

povo que lavas no rio

Migalhas


Quando Angelita era Angelita o pão era caseiro, me conta ela.
Ninguém a mandava à padaria. Não para isto.
Entre fofocas e segredos, as migalhas se espalhavam pela mesa.
Entre os dedos de sua tia, as migalhas se tornavam bolinhas.
Assim a manhã passava e o pratinho da tia era todo um petit poá.

A tia de Angelita


Quando Angelita era Angelita, me conta ela,
gostava muito de imitar a tia no café da manhã.
A cozinha de cimento queimado vermelho
tinha sobre ele um fogão a lenha e uma mesa para 8 pessoas.
Entre a cozinha e a sala, um degrau.
A tia tinha a mania de mexer o açúcar na xícara com a faca.
Angelita achava isso de uma maturidade!Adicionar vídeo

Angelita me contou



Quando Angelita era Angelita,
não tinha irmã, me conta ela.
As lembranças de ser Angelita são nostalgias solitárias.
São sem ouvintes nem testemunhas.
Era agridoce ser sozinha.

se assim acontecer...


Se tudo pode acontecer

Se pode acontecer qualquer coisa

Um deserto florescer

Uma nuvem cheia não chover
Pode alguém aparecer

E acontecer de ser você

Um cometa vir ao chão

Um relâmpago na escuridão
E a gente caminhando de mão dada de qualquer maneira

Eu quero que esse momento dure a vida inteira

E além da vida ainda de manhã no outro dia

Se for eu e você

Se assim acontecer. . .
Se tudo pode acontecer

Se pode acontecer qualquer coisa

Um deserto florescer

Uma nuvem cheia não chover
Pode alguém aparecer

E acontecer de ser você

Um cometa vir ao chão

Um relâmpago na escuridão
E a gente caminhando de mão dada de qualquer maneira

Eu quero que esse momento dure a vida inteira

E além da vida ainda de manhã no outro dia

Se for eu e você

Se assim acontecer. . .




presente da Lu

Essa vem do vilarejo de Vihclos na ilha grega de Hydra!